7 de janeiro de 2008

“Os Estabelecidos (insiders) e os Outsiders”

O livro de Norbert Elias & John L. Scotson (2000)[1], intitulado “Os estabelecidos e os Outsiders”, narra no primeiro capítulo, uma pesquisa realizada em uma comunidade chamada “Winston Parva”, onde haviam uma rivalidade entre dois grupos aparentemente homogênios. De um lado os residentes mais antigos do bairro, chamados de estabelecidos, e do outro, os recém chegados, que por mais esforço que fizessem, não eram aceitos na coletividade dos estabelecidos. Os motivos destacados pelo grupo estabelecido para não aceitar a infiltração dos recém chegados (outsiders), eram baseados em suma pela ameaça do monopólio das fontes de poder, ameaça contra o carisma da coletividade construído durante três gerações e pelo medo de serem rompidas as normas grupais construídas. Diante desta rivalidade de grupos, os estabelecidos, intitulavam os outsiders de sujos, contaminados, tanto pela anomia, como pela sujeira propriamente dita. Os estabelecidos se intitulavam de seres “melhores”, uma raça superior, portadora de uma capacidade acima.
A pesquisa concluiu que, por baixo dos “escombros de um guerra fria” visando manter o monopólio do poder e privilégios na sociedade existente dos estabelecidos, haviam barreiras emocionais, que eram solidificadas e de difícil dissolvência, já que não haviam diferenças de raça, cor, economia, etnia. Ambos os grupos eram parecidos fisicamente olhando-se de fora, mas, intrinsecamente, opostos. E devido este estigma por parte dos estabelecidos, os outsiders, começaram a receber este efeito em sua auto-imagem, enfraquecendo-se e desarmando-se, a ponto de parte de seu grupo, agirem conforme os rivais ditavam. A rebelião e a revolta por parte do outsiders eram armas de combate a exclusão, mas que nada adiantavam no embate de poder contra os estabelecidos. E concluiu-se também, que no passar do tempo, por menor que fosse as disparidades existentes entre o dois grupos, ainda ficara gravado, os estigma de inferioridade nos outisiders e o pré-conceito dos estabelecidos em sua geração.

Reflexão:

Vemos aqui uma rivalidade entre dois grupos que tinham tudo para se darem bem, mas viviam em bases excludentes por motivos pouco plausíveis.
E nós, será que não estamos procedendo da mesma maneira com nossos semelhantes? Porventura, não estamos estigmatizando, rotulando e excluindo aqueles que por um motivo ou outro não se enquadram dentro das normas subjetivas construídas pela fixação do tempo em nosso grupo? Qual o preço de perdas, pela guerra de poder grupal? Qual o objetivo final desta rivalidade que infelizmente tenta se estabelecer entre nós? Se por um momento, pararmos para analisar nossas grupos de louvor, não veremos rivalidades entre eles? E entre grupos de visitação, evangelismo e demais departamentos, seria possível afirmar a inexistência desta rivalidade?
Acredito ser oportuno, parar para refletirmos sobre nossos comportamentos e valores, em relação aos outro. É possível perceber que pessoas novas quando chegam num local como à Igreja, na escola, no trabalho, levam tempo para serem incluídas num grupo. Sabemos que é normal haver certo tempo pelo motivo de adaptação, mas quando isso se estende de forma exagerada, trata-se de um problema no grupo. Sabendo que marcas profundas ficaram nos grupos estabelecidos (insiders), que um dia poderam se tornar outsiders e nos outsiders que poderam transformar-se em insiders. Não estamos isentos de uma metarmofose, o “mundo dá voltas”.
Deus na sua essência não faz acepção de pessoas, pois em Romanos 2.11 está registrado: “Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas”. Tiago orienta assim: “Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas” (Tiago 2.1). Tiago continua: “Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redargüidos pela lei como transgressores” (Tiago 2.9).
Deus nos ensina que aborrece o pecado do homem, mas não o rejeita. Deus sendo Soberano teria toda a autonomia para nos rejeitar, mas não o fez mesmo diante de nossos pecados. Deus nem mesmo se irrita pelas nossas diferenças em relação a Ele, no modo de pensar ou agir. Que Deus nos acrescente a capacidade de fazermos a distinção entre o pecado e o pecador. Entre meus paradigmas e os dos meus irmãos. Pois somente assim, teremos condições de acolher o pecador, caminhar com ele e ajudá-lo a se desfazer dos seus pecados. E mais, convivermos em irmandade.

E você hoje, faz parte de qual grupo, dos outsiders ou dos insiders?


[1] ELIAS, N & SCOTSON, J.L. Os estabelecidos e os Outsiders. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 2000. p19-50.
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