8 de janeiro de 2009

GPS MINISTERIAL




CRÔNICA: Enquanto eu ministrava na Faculdade de Teologia, uma questão se pôs em meu coração sob a seguinte temática: “A Problemática da Departamentalização da Igreja Atual”...

Minhas aulas na Faculdade de Teologia não são as mais badaladas, e nem as mais sofríveis, acredito. Pertenço ao contingente dos professores que se esmeram em dar o melhor de si, em busca do conteúdo ideal, a fim de alterar o contexto atual. Recentemente enquanto eu ministrava a disciplina “Culto Liturgia e Ofícios”, uma questão se pôs em minha mente e coração sob a seguinte temática: “A Problemática da Departamentalização Eclesiástica da Igreja Atual”. A discussão rendeu a aula; e não bastando, renda esta crônica.

DEPARTAMENTAL OU MINISTERIAL
Parece desnecessário frisar que ambos são importantes e até necessários para o andamento da obra do Senhor. No entanto, o que questiono aqui é a interposição de um sobre o outro. Cito um exemplo: qualquer igreja, por menor que seja, tem um departamento de evangelismo, o qual tem por objetivo maior divulgar, fomentar e promover ações no sentido de alcançar os perdidos e afastados da Casa de Deus. Até aí, tudo bem. Acontece que na prática, raramente a igreja se envolve de fato com o evangelismo, e assim, o departamento (geralmente composto por uma pequena equipe) fica “autorizado” pela membresia a realizar aquilo se considera missão de todos. Entendo que um departamento não pode ficar com tamanha missão. Ou seja, o ministério do evangelismo fica enquadrado (às vezes, literalmente) a uma sala onde se guarda os folhetos e materiais de divulgação, ou algo do gênero. O apóstolo Paulo assim se pronunciou: “ai de mim se não anunciar o evangelho” (1 Coríntios 9.16). Quando a igreja entender a sua vocação ministerial para o alcance dos perdidos, certamente, neste dia ela revogará a procuração concedida aqueles que levam sobre os ombros a responsabilidade de pregar o evangelho e trazer as “almas” para o aprisco do Senhor.

HAJA FESTA
Outra questão que me inquieta na condição de teólogo é ausência de um critério para as festividades de nossas igrejas. Enquanto cada departamento exige o seu espaço (semanal, mensal e anual), cabe ao líder da igreja “fazer” espaço, uma vez que nem sempre é possível encontrá-lo. E o resultado não poderia ser outro: festa atrás de festa, quando não, festa sobre festa... Reitero aqui a necessidade de a igreja manifestar sua punjância e gratidão a Deus em datas especiais, porém, a inexistência de um mínimo parâmetro norteador anuncia um enfraquecimento dos nossos encontros espirituais. Apreciaria resgatar aqui a nossa “pré-história”: quando olho para o povo eleito por Deus desde a sua origem, reparo que, de fato, Israel foi uma nação que adotou as festas com três objetivos claros: celebrar a Deus suas conquistas, render a Ele sua gratidão e especialmente perpetuar os grandes feitos de Javé. Então... não se pode dizer que festejar seja um problema. A propósito, o próprio Deus estabeleceu o calendário festivo judeu. Isto fica evidenciado no livro de Êxodo 23.14: “Três vezes no ano me celebrareis festa”. Obviamente houve outras festas. Quando as festas atuais apenas cumprem um cronograma estrangulado e concorrido, sem nenhuma ou mínima orientação e progressão espiritual, não tenho dúvidas de que precisamos urgentemente de revisar nossos conceitos de congraçamento eclesiástico e espiritual. Penso que as “festas departamentais” deveriam ceder o seu lugar aos “festivais ministeriais”, onde a prioridade não seria atender ao número crescente de departamentos (o que teoricamente não é ruim), mas sim, enfatizar aspectos como o ministério (obreiros e vocacionados), a família (integral e não as faixas etárias), o louvor (em lugar dos diversos grupos que literalmente dividem os cantores), o crescimento da igreja (evangelismo e missões), além do ensino bíblico. Ou seja, os blocos de convergência de interesse da igreja suplantariam os grupos que na prática fragmentam a textura eclesiástica. As festas não podem ser extintas do calendário da igreja. Elas precisam de uma contextualização bíblica, sem perder de vista o perfil de cada igreja.

O REVEZAMENTO DO CAJADO
Uma última questão levantada em sala de aula diz respeito ao papel que o pastor (ou líder) da igreja tem desempenhado atualmente no que tange ao seu espaço na liturgia dos cultos dominicais, especificamente. Considerando o contexto atual, no qual os membros e os participantes dos cultos evangélicos priorizam ou apenas tem a opção de freqüentar os cultos aos domingos, entendo que os referidos cultos não deveriam ficar sob a direção plena e soberana dos departamentos (sem nenhuma depreciação, entenda-se). O meu raciocínio é óbvio: sendo o culto de maior freqüência da igreja, certamente os membros prefeririam receber o sermão ou cultuar a Deus com o seu pastor conduzindo a reunião espiritual. Afinal, ele é o guia espiritual que Deus espera que aproveite racionalmente o tempo da igreja. O profeta Isaías no capítulo 40 e versículo 11 destaca quatro verbos: “Como pastor, apascentará... recolherá... levará... guiará”. Entendo que o controle do rebanho é atribuição exclusiva do pastor. Porém, o que se vê atualmente em muitas igrejas é uma verdadeira maratona olímpica, onde o bastão da condução dos cultos dominicais é revezado a cada domingo; e, em muitos casos, o pastor apenas acompanha o desempenho dos seus companheiros. E para não ficar apenas no camarote litúrgico, sobra a bênção apostólica (se deixarem, é claro). Eu vou à minha igreja ouvir Deus! E, preferencialmente através do meu líder espiritual: o meu pastor local. Isto não significa que outros ministros não mereçam o altar no “dia do Senhor”. Apenas estou colocando as minhas prioridades. Até porque a grande maioria dos membros não freqüenta os cultos de ensino, cujo titular também é o anjo da igreja. Acredito que uma maior participação efetiva dos nossos líderes espirituais na condução dos nossos cultos, e especialmente na ministração dos oráculos sagrados, limitará a probabilidade de uma alimentação espiritual não balanceada.

Não acredito na extinção dos departamentos. Isto seria um absurdo! Penso, apenas, que as ações eclesiásticas deveriam ser norteadas pelo Espírito Santo, e dirigidas por ministérios. Em tempos de pós-modernidade, os departamentos funcionam e bem, quando guiados pelo “GPS ministerial”. E, biblicamente, somente o pastor detém a posse da direção do seu rebanho. Afinal “as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (João 10.4). E, finalmente, considerando as três necessidades básicas da ovelha (proteção, direção e alimentação), somente os pastores poderão satisfazê-las enquanto palmilhamos a senda cristã através dos precipícios do mundo espiritual.

NEIR MOREIRA
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