25 de junho de 2009

A Bênção da Salvação

Quem não quer bênçãos? Todos querem. Falou em bênção já tem gente saltando, com um sorriso aberto e com a expectativa de somente se apoderar dela. Com certeza nunca se falou tanto em bênçãos como no Cristianismo atual. É bênção pra todo lado: Venha receber sua bênção...., Culto da Benção..., Tome posse de sua bênção....! Parece que a alegria de boa parte de nosso cristianismo está movido, ou tem sua fonte nas bênçãos que o Bom Deus nos dá. Parece que a força motriz de muitos de nós para a oração, o culto a Deus e o serviço no seu Reino está nas bênçãos que Ele pode nos oferecer. Mas o que há de errado com as bênçãos? Absolutamente nada. Não vou transparecer aqui que sou apenas um servo sofredor (muito raro em nossos dias) que anseio o sofrimento para poder chegar mais perto de Deus, apesar disso nos fazer realmente chegar mais perto dele. As bênçãos são sim ações e benevolência do Senhor para com nossa caminhada nesta Terra. É o agir do próprio Deus em nosso favor. Elas são inúmeras na minha vida e sei que na sua vida também. O que quero contrastar a seguir é a disparidade que existe entre o foco nas bênçãos e o foco na maior de todas as bênçãos que o Senhor podia nos dar – a Salvação.


Certa vez vários discípulos de Jesus vieram até ele saltitantes, cheios de alegria, orgulhosos (qualquer um de nós sentiria assim) pelas bênçãos que receberam no trabalho de evangelismo que fizeram. Porém, estavam mais alegres de terem expulsado demônios em nome do Senhor Jesus do que nas possíveis almas que se salvaram. É aqui que Jesus entra no âmago da questão. Ele reafirma que havia dado autoridade contra o poder do inimigo, isso é uma bênção! Contudo, essa não deveria ser a alegria deles, e sim porque tinham seus nomes escritos nos céus! Em outras palavras, a certeza da salvação deveria ser a fonte, a origem, o nascedouro de seu contentamento. Após Jesus ter despertado em seus discípulos a consciência da verdadeira bênção, ele agradece ao Pai por ter-lhes revelado tão grande graça (Lc 10.17-24).



Eu não saberia dizer onde e quando deixamos de valorizar a salvação em nossas vidas. Não sou saudosista, nem gosto quando vangloriam tanto o passado que nos parece que Deus somente agiu, inspirou e santificou as pessoas nos “tempos áureos” do cristianismo com suas dificuldades e muito sofrimento. Com certeza isto acontecia. Mas como nosso Redentor “é o mesmo ontem, hoje e eternamente” (Hb 13.8), sua obra continua e continuará para sempre. Porém uma coisa “invejo” destas épocas – início do pentecostalismo no Brasil, primeiras gerações de crentes na família, etc. A alegria na simplicidade do evangelho era um traço marcante neles. O que importava para eles era verdadeiramente a alegria da salvação. Não que não ansiavam mais bênçãos do Senhor, claro que não. E receberam muito mais, pois Paulo nos lembra que “aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” No entanto estavam tão jubilosos de saberem que Deus os amava tanto que enviou seu único Filho, Jesus, para os salvar e garantir-lhes a vida eterna! O mundo poderia acabar, eles estavam salvos. E isto era motivo suficiente para desejarem espalhar as boas novas.


Será que esta mensagem mudou, ou não faz muito efeito mais? Será que ela significa muito pouco para ainda acordarmos de manhã com alegria e esperança por nossa redenção? A verdade é que substituímos as coisas eternas pelas transitórias. O céu pela vida. A obra de Deus pelo prazer e o conforto. A soberania de Deus pelo triunfalismo. O evangelismo pelas vitórias. As músicas de louvor e adoração por letras de auto-ajuda e vingança. Se nossa ênfase está nas coisas desta vida e deste mundo, estaremos continuamente insatisfeitos. Pois não há um limite de necessidades a ser suprido, sempre teremos algo a mais que nos falta porque criamos tantas necessidades ao longo dos anos. É natural que sempre teremos algo a receber da parte de Deus. Mas creio que a razão de termos tantos crentes continuamente frustrados, descontentes com a vida, é justamente por não atentarem que já possuem a mais grandiosa de todas as bênçãos. É fácil perceber isto até em nossos cultos. Quantas vezes temos cultos maravilhosos, a palavra falando conosco de forma poderosa, porém os convites se limitam a crentes para virem a frente receber uma bênção e quase nada para pessoas que desejam entregar suas vidas a Cristo. E frequentemente, após terem feito todos os tipos de convites para o povo – e o povo realmente é abençoado – lembram-se do apelo evangelístico, se há porventura alguém que queira ser salvo do inferno e ir para o céu! Isto quando não acontece de forma um tanto desleixada pouco antes da bênção apostólica. Nos meios de comunicação isto é mais perceptível ainda. Vemos bênçãos para todo lado e de todas formas: curas, promessas materiais, vitória sobre os inimigos, etc, mas a salvação e paz de alma que só Jesus oferece é tão mínimo que a religião cristã evangélica é muito mais vista como um grande supermercado onde pegamos o que precisamos.


Gosto muito quando o salmista diz no Salmo 16.3: “Digo ao SENHOR: Tu és o meu Senhor; outro bem não possuo, senão a ti somente.” Oxalá todos nós pudéssemos dizer diuturnamente que nossa salvação em Cristo é o nosso maior bem. Muito acima de qualquer bênção ou dádiva ou dom. É somente na contínua convicção da segurança e esperança de que temos na salvação em Cristo que podemos realmente viver pela fé. É somente quando todos os dias atentarmos que fomos tirados do reino das trevas para o Reino da Luz que saberemos que não há nada mais a temer! É somente quando crermos verdadeiramente em Cristo e no amor de Deus que poderemos realizar boas obras conforme comenta Martinho Lutero: "A primeira, suprema e mais nobre obra é a fé em Cristo, conforme ele diz em Jo 6. Quando os judeus lhe perguntaram: "Que devemos fazer para praticar boas obras divinas?", ele respondeu: "A boa obra divina é que vocês creiam naquele a quem ele enviou." (Jo 6.28s) (...) Pois nesta obra é que todas as obras precisam realizar-se, dela recebendo a influência de sua bondade como um feudo (Obras Selecionadas, Vol.2, p. 102).


Um dos maiores princípios a ser relembrado pelo nosso cristianismo atual é que para vivermos como cristãos precisamos saber quem somos como cristãos. Em muitas cartas paulinas, primeiro vem a exposição a respeito da obra de salvação realizada por Cristo e o chamado à fé, seguindo-se daí o chamado para viver em conformidade com o evangelho, que corresponde à parte ética (Galatas 1, Efésios 1, 4.16; Colossenses 1 e 2 e 3 e 4). Em outras palavras, não conseguiremos, de maneira alguma, viver de acordo com os padrões de Deus se não nos conscientizarmos de quem somos. Só conseguiremos ter uma família estruturada e fazermos a Obra do Senhor dignamente quando percebermos quem somos. Somos “O Povo Mais Feliz da Terra” segundo o livro de Demos Shakarian, fundador da Adhonep. Enquanto milhões de pessoas se afundam cada vez mais no vazio e na desesperança de sua existência, já temos uma viva e rica esperança, certos que cada dia que passa, mais perto está a consumação de nossa redenção. Este ainda deve ser nossa alegria suprema. Nosso ar puro em meio à poluição de nossos tempos. Nosso alarido a todos que ainda precisam desta tão grande bênção.


Colunista deste Blog
E. Henrique Pesch - Formado em Letras (Português-Inglês), Graduando em Teologia, Pós-graduado em Comunicação Corporativa, tradutor, revisor, professor de inglês/português/EBD, líder da Mocidade do Bairro Tingui/Ctba

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