26 de outubro de 2009

A BÍBLIA COMO FONTE LITERÁRIA




Não é à toa que um dos personagens imaginários do novelista russo, Fiodor Dostoievski, considerado um dos grandes romancistas, exclama, no romance Irmãos Karamasov: “Que livro é a Bíblia!” Ela não só representa aquele “livro antigo” mas também um repositório de composições que variam das mais simples canções populares aos mais ponderados poemas filosóficos, tendo sido escrita no longo curso de 15 séculos, pelos mais diferentes autores. Pode-se afirmar que os gêneros literários encontrados na Bíblia influenciaram na disseminação deles junto às gerações seguintes, propiciando uma inspiração aos homens e às mulheres de Letras.


Uma das formas de exposição dos assuntos é a descrição, como a que logo aparece no livro de Gênesis 2.8-14: “E plantou o Senhor Deus um jardim no Éden, da banda do oriente (...)”. A narração distingue-se pela seqüência de fatos ou episódios e é encontrada em várias partes, como na ressurreição de Jesus, em João 20.1-10: “E no primeiro dia da semana Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu a pedra de lá removida”. A dissertação é exemplificada no livro de Jó 36.1-14 quando Eliú justifica Deus perante Jó: “Não tardarei a demonstrar-te que tenho outras razões em favor de Deus. Retomarei meus argumentos desde o princípio e provarei que o Senhor é justo (...)”. Até a simples enumeração tem seu lugar, como nos episódios da história do povo e dos reis de Israel e Judá, na doutrinação das gentes, na elaboração das leis, das genealogias etc. A narração histórica também ocupa uma boa parte na Bíblia, como as registradas nas passagens sobre a escravização e o livramento do povo de Israel em Êxodo 1 e 12 respectivamente. Ainda, a construção (II Crônicas 3), a destruição (II Reis 25), e a reconstrução (Esdras 6) do templo de Jerusalém como a própria crucificação de Cristo em Marcos 15, evidenciam esse tipo de narração.

Antes de se entrar nos gêneros literários propriamente ditos, examinam-se alguns gêneros textuais presentes nas Sagradas Escrituras. O gênero oratório haveria de ser naturalmente um dos mais freqüentes numa obra em que, dentre os vários objetivos, destacam-se a orientação e a doutrinação das massas. Talvez o melhor modelo de eloqüência e dialética seja o do Sermão da Montanha, contido em Mateus 5-7. Outro gênero de enorme importância para a própria transmissão das mensagens é o epistolar. Entre as 21 cartas apostólicas, doutrinárias por natureza, encontram-se até exemplos de correspondência familiar como na terceira carta de João. O maior representante é o apóstolo filósofo Paulo, fato este que pode ser observado em sua epístola aos Filipenses. Por fim, o gênero didático, que pode ser localizado nos Provérbios – uma coleção de preceitos que constituem um tratado de filosofia prática – tal como em 8.11: “Aplica à disciplina o teu coração e os teus ouvidos às palavras do conhecimento”.

Na Bíblia encontram-se as três grandes divisões literárias, segundo a tipologia clássica de Aristóteles: lírica, épica e dramática. Porém, neste pequeno espaço optou-se em destacar o rei Davi como o grande representante do gênero lírico, como no Salmo 100: “Celebrai com júbilo ao Senhor todos os moradores da terra”, manifestando grande alegria, ou no Salmo 102.4: “(...) o meu coração está ferido e seco como a erva”, manifestando grande angústia. Há uma ode a Davi por sua magnífica vitória contra os filisteus em I Samuel 18.7: “Saul feriu os milhares, porém Davi os seus dez milhares”. E certamente não se pode esquecer do grande poema sobre a beleza e o caráter sagrado do amor puro entre um homem e uma mulher, presente em os Cantares de Salomão. Quanto ao gênero épico, uma forma narrativa, há o empolgante romance da vida real de José do Egito, que toma praticamente 20 capítulos de Gênesis. As parábolas de Jesus, como a do administrador infiel, em Lucas 16, demonstram a ficção e vários exemplos de contos, tais como a multiplicação dos pães em João 6. Com relação à epopéia, narração poética sobre um grande empreendimento nacional ou humano, à semelhança de Odisséia de Homero e de Os Lusíadas de Camões, há o heróico relato da marcha dos hebreus, ao longo do deserto, em sua triunfante jornada à terra prometida. Já o gênero dramático pode ser identificado na tragédia que narra o cativeiro de Judá na Babilônia, de II Reis 24. Encontrar elementos da sátira seria difícil, pois a Bíblia não oferece campo propício, mas nem por isso o livro é de todo alheio ao assunto, visto que essa caraterística se ensaia em expressões candentes com as quais reagem Jesus e os discípulos à presunção de adversários renitentes, ou com a ironia do apóstolo Paulo em I Coríntios 15.29-32 “(...) se absolutamente os mortos não ressuscitam, por que se batizam por causa deles”?


E. Henrique Pesch
Colunista
Postar um comentário