5 de abril de 2010

ENVOLVIMENTO PESSOAL



“Não conheço nada mais mortífero do que o isolamento. Nenhuma outra influência tem ação mais destrutiva sobre a saúde mental e física que o afastamento entre as pessoas. Já se descobriu que esse é um dos fatores centrais no surgimento de moléstias tais como depressão, paranóia, esquizofrenia, e atos como estupro, suicídio, assassinato em massa e uma ampla variedade de outros distúrbios” (Prof.º Philip Zimbardo – psicólogo da Universidade de Stanford – EUA).

Quais outros males que o isolamento causa? Nossas relações não são superficiais? “Oi, tudo bem? Tudo e você? Tudo, tchau. Tchau.” Não preferimos papos virtuais a reais situações de envolvimento: olho no olho, sinceridade... Este raro pensamento me chama a atenção:

“Nenhum homem é uma ilha, inteira em si mesma; todo homem é uma parte do continente, um pedaço do território todo. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor... A morte de qualquer homem me diminui um pouco, pois estou envolvido com toda humanidade; e, portanto, não mandes perguntar por quem é que o sino está dobrando; ele dobra por ti” (John Donne – poeta, pregador e pensador do século XVII).

O que Deus nos diz sobre isso? Deus não criou o homem para viver sozinho, ao contrário, fomos criados para viver em sociedade. Já vimos que muitos são os males resultantes do isolamento. Então devemos exercitar o amor ao próximo, através do comprometimento uns com os outros, afinal: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2:18).

O que é Envolvimento?

Um dicionário define estar envolvido como “ser participante, ter uma relação bem próxima, ter conexão, estar incluído”. Quando nos envolvemos com alguém, temos conexão com essa pessoa, e ao fazermos nossos planos, temos que pensar nela.

4 Áreas de Envolvimento

1. Envolvimento com Deus – Este certamente é o mais importante. No passado esse envolvimento resultou em um novo nascimento pela Fé em Jesus e em nossa salvação (Rom 5.1). No presente implica no nosso caminhar diário com Cristo pela Fé (At 9.31). Temos que pensar e consultar ele sempre que fizermos nossos planos (Fl 4.6).

2. Envolvimento com os membros da Família – pais, filhos, irmãos, parentes,

cônjuges... cristãos ou não (nosso círculo mais íntimo). Como estamos ajudando eles? Queremos muitas vezes trazer o mundo para Cristo, mas estamos ajudando as pessoas de nossa própria casa a chegar mais perto dele? (Gn 12.3).

3. Envolvimento com Não-Cristãos – Trabalhamos com eles; vamos à faculdade com eles; vivemos perto deles. Se não envolvermos com eles, como os traremos a Cristo? Muitas pessoas têm dificuldade em saber até que ponto podem se envolver com os não-cristãos? Jesus disse em Mateus 5.14 que somos a luz do mundo. A luz só realmente brilha na escuridão, entretanto não podemos permitir que a escuridão venha influenciar ou corromper a maravilhosa luz que é Jesus vivendo em nós.

4. Envolvimento com outros Crentes – Geralmente estas pessoas são escolhidas dentre as que freqüentam nossa igreja. Fator importante para nossa caminhada frente à vida, que de outra forma seria uma peregrinação mais difícil e desanimadora. Alguém já sugeriu que somos um bando de porcos-espinhos numa fria noite de inverno. O frio nos força a aproximarmo-nos uns dos outros, formando um grupo compacto, para nos mantermos aquecidos. Mas quando começamos a aconchegarmos demais, nossos pontiagudos espinhos começam a espetar uns aos outros – e isso serve para nos afastar. Mas pouco tempo depois começamos a sentir frio novamente e nos aconchegamos outra vez, para nos aquecermos, e de novo nos pomos a espetar e a picar uns aos outros. E assim ficamos nessa estranha e rítmica “dança tribal”. Não podemos negar o fato: precisamos uns dos outros e, no entanto, estamos sempre distribuindo alfinetadas mutuas.

Como romper esta síndrome do “porco-espinho”? Primeiramente fortalecendo nosso envolvimento com Deus e sua Graça. Segundo, precisamos urgentemente de verdadeira comunhão. Este versículo sempre me chamou a atenção:

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42).

A Igreja acabara de nascer. Mais ou menos 3 mil jovens novos-convertidos nas ruas de Jerusalém. Eles não tinham muito em que se apoiar – nem prédios, organização, pastores, coral-jovem, acampamentos, estatutos e nem mesmo uma versão completa da Bíblia. O que fizeram?

o Instrução dos apóstolos Pv 15.33

o Oração 1Ts 5.17

o No partir do pão Gl 6.2

o Comunhão At 2.43-45

Esses Cristãos tinham em comum o riso e o pranto, os fardos, gozos e alegrias. O escritor Jesse Lyman Hurlburt disse em livro Historia da Igreja Cristã: “O amor de Cristo ardia no coração daqueles homens e os constrangia a mostrarem esse amor para com seus condiscípulos, a viver em unidade de espírito, em gozo e comunhão”. Essa comunhão é expressa cerca de 20 vezes no NT e é expressa em duas das direções seguintes:

o partilhar coisas materiais;

o partilhar um projeto, um sucesso, um fracasso, uma necessidade, um sofrimento.

Essa comunhão Bíblica nunca é algo que se vive sozinha. Deus quer que seus filhos se envolvam profundamente uns com os outros (Cl 3.13). Mas por que nos envolvermos quando há tanto risco? Aqui estão algumas razões:

- Deus quer que rompamos com o isolamento (amar sem hipocrisia) – Rm 12.9-21.

Não podemos deixar as desculpas seguintes fazerem parte de nossas vidas: “Sou muito ocupado”. “Não preciso de ninguém”. “Não vale a pena correr o risco”. “Se chegar muito perto posso me machucar”. Mas a verdade é que o corpo de Cristo precisa de Envolvimento (1Co 12.20-27).



Quais são as características do envolvimento entre os cristãos

Nos versículos 25 a 27 de 1 Coríntios 12, encontramos pelo menos três características do envolvimento verdadeiro: espontaneidade, vulnerabilidade e responsabilidade.

Espontaneidade
No versículo 25 diz: “Para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros”. Acho ótimo que Deus se expresse dessa maneira: “haja”. Ele não diz: “Faça isso, senão...”. Essas palavras empregadas no versículo sugerem uma disposição espontânea. Quando Deus pede um envolvimento, não é um envolvimento forçado. Nunca é imposto, mas brota naturalmente. Mas poderíamos perguntar: espontâneo, natural? Deus não faz nada pelo envolvimento dos membros de sua igreja? Claro que faz. Deus cria as condições para que o nosso envolvimento seja espontâneo. Nos versículos 12 a 27 Deus faz uma analogia entre o nosso corpo e a igreja: “... Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis (v.18), dando muito mais honra ao que tinha falta dela (v.24), para que o olho não diga à mão: Não tenho necessidade de ti, nem ainda a cabeça, aos pés: Não tenho necessidade de vós (v.21), para que não haja divisão no corpo (v.25)”. Com isso Deus está dizendo: “Não importa se o que você faz pela obra de Deus é ou não reconhecido pelo homem. Para Deus e para a igreja somos todos igualmente importantes “Para que não haja divisão no corpo (v25)...”.

Vulnerabilidade
Neste mesmo capítulo de 1 Coríntios 12, o versículo 26 diz: “De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele, e se um deles é honrado, com eles todos se regozijam”. Aquele que se envolve, participa genuinamente do sofrimento alheio. Está vulnerável, exposto a ferir-se, porém participa também da honra alheia, sem inveja, com alegria verdadeira.

O ilustre escritor Larry Crabb diz em seu livro De Dentro para Fora: “É pecado de auto-proteção dizer a palavra branda ao sofrimento alheio quando motivado pelo medo da ameaça ao seu conforto pessoal”. Leiamos também o versículo 3 de Marcos 14: “...veio uma mulher que trazia um vaso de alabastro, com ungüento de nardo puro, de muito preço, e, quebrando o vaso, lho derramou sobre a cabeça”. Muitas vezes entramos na igreja. Um a um, como vasos de alabastro individuais. Contidos, auto-suficientes, encerrados em si mesmos, um conteúdo não revelado e que não exala perfume. Estamos preocupados somente com o exterior; com roupas, personalidades, posições no mundo, porém um envolvimento verdadeiro não é superficial, você quebra o vaso. E o que acontece depois? O mesmo que aconteceu com o vaso daquela mulher: o conteúdo se evapora. E nunca mais você pode tê-lo com você.

É isso que acontece com a vulnerabilidade. É muito arriscado, mas também é muito importante, porque você só estará disposto a “quebrar o vaso” se você estiver vulnerável.

 
Responsabilidade
A última coisa que vemos que faz parte do envolvimento com outros cristãos é responsabilidade. No versículo 27 diz: “Ora, vós sois corpo de Cristo, e, individualmente membros desse corpo.” Somos membros do corpo de Cristo.

Como vimos quando falávamos sobre espontaneidade, somos todos igualmente importantes para a igreja (corpo), ou seja, somos tão importantes para os outros membros, como eles para nós. É um conforto saber que amamos e somos amados, que nos importamos com alguém que também se importa com a gente, principalmente nesse mundo de isolamento e anonimato em que vivemos. Porém, isso realmente acontece na nossa igreja? Em muitas de nossas igrejas é muito fácil uma pessoa ficar totalmente “perdida” em meio à multidão e todo o movimento. Esta pessoa pode realmente se tornar um rosto sem nome. Quantas vezes demoramos vários meses para perceber que certa pessoa não esta mais participando conosco?

Envolvimento implica em sermos responsáveis uns pelos outros, responsáveis pelas pessoas isoladas e perdidas que precisam da gente, e mais, das quais nós precisamos. Envolvimento não pode ser visto apenas como uma espécie de passatempo. É uma questão de sobrevivência da igreja.

E. Henrique Pesch

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