18 de janeiro de 2011

Comunidade Terapêutica - Reflexão


por Ivan Tadeu Panicio Junior


Todos vivemos num sistema denominado sociedade, ainda que mediante um estudo mais aprofundado, nem todos, ou grande maioria, não faça parte de uma sociedade única, mas subdividida em micros sociedades, tendo em vista o conceito de que, para nos denominarmos membros de uma sociedade, precisamos ter convergências similares, pontos em comum e outros.


Nesta mesma linha de pensamento, Jorge Maldonado entende que vivemos num “multiverso” e não universo. Cercados das mais variadas tendências, ideologias, formas, princípios e entendimentos. Mas, mesmo diante desta realidade múltipla, pessoas em geral, não são impedidas de exercer seus papeis comunitários. Membros de uma sociedade macro ou micro, participantes de um “multiverso” ou universo, podem viver em comunidade.

Quando falamos em comunidade, de forma muito simplificada, logo pensamos num ajuntamento de pessoas. Mas comunidade vai muito além disso. Para se estabelecer uma real comunidade, é preciso que haja alvos, objetivos, características, e outras formas a fim. Subentende-se que os membros estão desenvolvendo um relacionamento palpado em objetivos em comum.

Todavia, estes membros ainda que possuam algo em comum, podem com freqüência, não promover o bem estar comum. Diante desta possibilidade de relacionamentos paradoxal, de crises emocionais, psicológicas e sociais, é que surge a temática Comunidade Terapêutica, que vem com a proposta de estabelecer um conceito no qual, os laços que existem em determinada comunidade venham gerar o processo terapêutico, ou seja, de cura e saúde integral de seus membros.

O Dr. Sidnei Vilmar Noé entende o conceito Comunidade da seguinte forma, uma palavra que implica etimologicamente duas palavras: comum e unidade. Surge o primeiro e segundo aspecto que devemos levar em conta, o elemento “comum”, fator que estabelece a possibilidade e uma “unidade” de qualquer comunidade. Sendo assim, para o Dr. Sidnei, comunidade é uma uniformidade, no sentido de que aquilo que é “comum” ou igual a todas as pessoas pertencentes àquela unidade, seja uma unidade de iguais, tanto internamente como externamente.

Algo interessante de se pontuar, é que para que uma comunidade se mantenha saudável, é preciso que tenha certa distinção das outras comunidades ao redor, pois esta diferença solidificará suas bases de sobrevivência. Haja vista que, os esforços contrários do comum e unidade desta comunidade, podem fragilizar os laços de convergência rumo a saúde deste grupo comunitário.

Para compreender melhor uma comunidade, podemos recorrer a Sociologia, que através de análises dos tipos de grupos sociais, suas funções e formas, desvendam fatores relevantes para solidificar a saúde deste grupo. Ao encontrar as composições primárias desta comunidade, é possível aperfeiçoar o sistema de relações sociais, de interações recorrentes e possibilitar uma compreensão mais clara de seus componentes culturais (como crenças, valores e sentimentos).

Para que fique mais claro, podemos dividir a compreensão de grupos em duas classes: Grupo Pessoal e Grupo Externo:

 Grupo Pessoal: é a coletividade que “sinto pertencer”, como a minha família, a minha igreja, a minha categoria profissional e a minha classe social.

 Grupos Externos: é a coletividade que “não pertenço” como outras famílias, outras religiões, outras nacionalidades e etc.

Enquanto muitos sociólogos e filósofos defendem a liberdade do ser e do grupo a fim de que obtenham a saúde almejada, há quem discorde.

Foucault em sua obra “Vigiar e Punir” entende que a liberdade ofertada ao homem, pode levá-lo à cultura da maldade, pois em sua compreensão, o homem tem a tendência de inclinar-se para o mal e a ação generosa de opor-se ao limite, pode ter efeito contrário. Então surge uma proposta de Foucault, que defende a disciplina ao homem, por meios de humanização e solidariedade, mas que, possam punir através de novas definições, a partir de novos princípios, punindo a mente através da perpétua vigilância. Sendo assim, o homem ao saber que está sendo vigiado, tem a tendência de cuidar-se.

Podemos citar ainda Durkheim, grande sociólogo, que afirma que a sociedade é externa a nós. Ela existe, é algo que não pode ser negado e que se tem de levar em conta. Assim, nossos desejos não são levados em consideração nessa questão de localização social, e nossa resistência intelectual àquilo que a sociedade aprova ou proíbe adianta muito pouco, na melhor das hipóteses. A concepção sociológica de Durkheim se baseia em uma teoria do fato social. Seu objetivo é demonstrar que pode e deve existir uma sociologia objetiva e científica, conforme o modelo das outras ciências, tendo por objeto o fato social. Ele desejava que a sociologia tivesse um objeto específico que a distinguisse das outras ciências, que pudesse ser observado e explicado assim como o objeto das outras ciências.

Para Marx, o motor da história é a eterna luta de classes, entre aqueles que detêm os modos de produção e aqueles que possuem apenas a força de trabalho para vender. De acordo com Marx, com o Capitalismo há o desvirtuamento do trabalho humano com a conseqüente servilização do proletário.

Em fim, muito se tem estudado, escrito e falado sobre a sociedade e sobre as comunidades, muitos descordam, outros contribuem com suas pesquisas, todavia, o que podemos extrair desta análise é que precisamos trabalhar para que tenhamos, seja como for, pessoas mais saudáveis integralmente, biopsicossocioecoespiritual.

Penso como a Dr. Roseli M. Kühnrich de Oliveira , precisamos elaborar um cuidado de si mesmo rumo ao outro. Este cuidado deve passar pelo cuidado físico (aspectos bio-orgânicos), cuidados emocionais (aspectos psicológicos), cuidado nas relações afetivas (aspectos pessoais), cuidado no convívio social (relação com o outro)e cuidado espiritual, na busca da integração a integralidade.

Se assim conseguirmos, poderemos afirmar que vivemos numa comunidade/sociedade terapêutica e quem sabe, não precise mais ser terapêuticas, pois não haverá mais doentes a fim de serem sarados.

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