3 de abril de 2012

Fora do serviço, grudado no trabalho


Pesquisa feita pelo Ipea aponta que 45, 4% dos profissionais não conseguem se desligar da sua atividade depois do expediente.

Pelo menos três dias por semana, o diretor da Único Pavimentos, Jorge Coelho, de 30 anos, acorda às 5 horas da manhã, toma banho, café e segue para o aeroporto para visitar clientes de um dos dez Estados que atende pela empresa. Nos demais dias, também acorda cedo, mas para atender as companhias da capital, que começam suas atividades às sete horas da manhã. "Trabalhamos com asfalto, e essas empresas começam as atividades muito cedo. Por isso, tenho de estar em pé nesse horário", comenta.

Apesar de madrugar, a jornada de Coelho não termina no horário comercial. Quando não tem de levar clientes para jantar ou participar de eventos, para de trabalhar perto das 21 horas. "Mesmo assim, vivo checando e-mails, inclusive, aos fins de semana", conta.

Coelho faz parte dos 45,4% de brasileiros que não conseguem se desligar do trabalho mesmo após o expediente, segundo pesquisa (veja outros dados ao lado) divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Para 26% desse total, o motivo é ter de ficar de prontidão, pois podem ser acionados para alguma atividade extra. É o caso de Coelho.

"Além do aspecto físico, ou seja, que exige ação do trabalhador fora do escritório, há ainda a parte psicológica. Se a função exigir muito da mente do profissional, alguns acabam tendo dificuldade para se desligar", afirma o presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), Alberto Ogata. A entidade é formada por empresas que possuem programas de bem-estar e por profissionais das áreas de saúde e recursos humanos.

Em alguns casos, na opinião do sócio-fundador da Alliance Coaching, Alexandre Rangel, é até positiva esta ligação com o trabalho. "Não é exatamente ruim estar em casa se divertindo com a família e as ideias fluírem na cabeça, dando solução para um problema na empresa que você não conseguiu pensar durante o expediente. É a mesma inspiração que ocorre com pintores e escritores, por exemplo."

Para a coaching da consultoria LAB SSJ Ana Carolina Correa, com o uso de tecnologias como smart phones, iPad está mais difícil para os funcionários se desconectarem do mundo corporativo. "Houve uma fusão profissional e pessoal. Ainda mais agora, com a mulher trabalhando, não dá para desconectar. Até mesmo as crianças participam de assuntos de trabalho dos pais."

Segundo Ana Carolina, esse tipo de interação é comum principalmente no caso de profissionais que atuam no mercado financeiro, que precisam estar atentos a tudo o que ocorre dentro e fora do País, e que assumem cargos de gestão. "Tudo depende do estilo profissional e da atividade que exerce, mas as empresas querem funcionários cada vez mais ligados. Por isso, veem como positiva a postura de quem continua pensando no trabalho nas horas vagas."

Há, também, o aspecto negativo. O sócio-diretor e consultor da Evoluo, Armando Grell, pontua que muitos profissionais acreditam que ficar mais tempo no trabalho pode ser visto como positivo pela empresa. "Essa medida é válida quando há necessidade. Mas se o trabalhador é disperso e não realiza suas atividades em tempo por problemas pessoais, ele precisa perceber que isso pode afetar de forma negativa a sua qualidade de vida."

De acordo com Grell, a falta de gerenciamento de tempo é comum no mundo corporativo. "Se o funcionário não consegue cumprir suas funções porque ficou navegando na internet ou se envolveu em outros assuntos não relacionados ao trabalho, ele se sente obrigado a compensar essa ineficiência e acaba levando trabalho para a casa. O que é uma grande armadilha para o seu desempenho."

Para alguns profissionais, no entanto, é possível separar a vida pessoal do trabalho. "São profissionais que gerenciam o seu tempo para serem produtivos durante o expediente e procuram não levar trabalho para casa", conta Andréa de Paula Santos, sócia da Ascend Recursos Humanos.
Há ainda, na opinião do sócio da consultoria Search, Paulo Naef, funcionários que optam por separar os dois ambientes para não comprometer o seu desempenho na empresa. "Quem fica ligado o tempo todo, pode sofrer desgaste mental e isso pode afetar os seus resultados."

É o que pensa o presidente do Grupo de Usuários Oracle Brasil (Oraug-BR), que reúne 510 empresas usuárias de produtos da Oracle, e professor universitário Reinaldo Nogueira, de 45 anos. Após 25 anos atuando na área de tecnologia, há cinco anos resolveu "tirar o pé do acelerador" e estabelecer horário para começar e terminar suas atividades.

"Às 20 horas de sexta-feira desligo o celular profissional e só religo na segunda-feira pela manhã. Percebi que sou mais produtivo e venho atingindo muito mais resultados dessa forma. Principalmente na área de tecnologia, na qual somos cobrados diariamente a apresentar soluções e inovações", conta.
Apesar da dupla jornada - atuar na Oraug-BR durante o dia e dar aulas algumas noites -, Nogueira não pensa em abandonar a vida acadêmica. "É uma forma que encontrei para fazer a passagem do dia de trabalho para a minha vida pessoal. Chego em casa mais leve. Só não aceito dar aulas aos sábados", diz.

Fonte: O Estado de São Paulo
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