20 de agosto de 2013

Consciência do ser


O simples ato de se olhar no espelho possibilita enxergar detalhes não observados sem seu auxílio. A contínua observação revela traços ainda mais miúdos, imperceptíveis muitas vezes, e, significativos que nos trazem a lembrança de nossa genealogia, percorrendo estradas profundas até chegarmos aos derradeiros traços do envelhecimento. Todavia, esta ação não abre possibilidades para conhecer a alma, o ser interior, o verdadeiro eu.

Todo ser humano precisa deste encontro com seu verdadeiro eu. Não com a imagem de quem gostaríamos de ter, nem com a paisagem que tentamos pintar em nós, mas, de nossa real aparição. Quando Jacó teve a experiência teofânica no Vau de Jaboque, na verdade ele teve um encontro consigo mesmo, pois a manifestação divina serviu como espelho para sua alma, descortinando-o, revelando seus verdadeiros trilhos, iluminando quem ele era na vida íntima, aquele ilustre falsário e, sua história nunca mais foi a mesma.

Para sermos alguém, antes de mais nada, precisamos saber quem somos quando não estamos encenando nenhum papel, quando estamos desnudos das roupagens sociais, quando não queremos impressionar ninguém, quando estamos em silêncio e ouvimos as vozes de nosso próprio interior, que muitas vezes grita, berra, esbraveja e descreve nossos cubículos mais sombrios. Erro recorrente, é tentar se encontrar no outro, tentar viver no outro, tentar se completar com o outro. Usamos de forma romântica e simbólica a expressão que estamos incompletos pela ausência do outro, mas só poderemos ser completos com a presença de nós mesmos e principalmente a de Deus. O outro em sua mais longa tentativa poderá nos revestir e nos confirmar naquilo que somos.
A infelicidade se encontra na projeção de que nosso tesouro está nas mãos de outro e não no recôndito de nosso ser, no supremo que habita em nós. Todos que se casam para serem felizes, estão caminhando na estrada errada, na contra mão da vida. Devem ter cruzado várias encruzilhadas de tristezas, ainda que acompanhados, insistindo na busca frenética de encontro com a felicidade que jamais será alcançada, porque, por mais que escavemos o outro, jamais encontraremos a chave de nossa felicidade no outro, e sim, nos compartimentos ou escombros de nossa própria alma.
Ser feliz é uma tarefa que inicia com a necessidade de se auto-encontrar, amar e aceitar a si mesmo.  Conhecer-se de forma que suas brechas sejam perscrutadas, suas necessidades sejam descobertas, suas vielas estreitas sejam iluminadas pela consciência e tenhamos condições de entregar à pessoa amada o mapa do labirinto de nosso próprio ser, do qual, só nós mesmos conhecemos as entradas, saídas, perigos e armadilhas ocultas, ou não! E quem sabe, juntos encontremos as saídas, e este descobrir será compartilhado.
Exigir que o outro me ame, me entenda, me ajude e me guie, sem que eu mesmo não o tenha feito, é cobrança infantil, é devaneio incoerente, ou no mínimo clara ignorância, revelando que estamos na calçada errada, e a felicidade está do outro lado da rua, no mínimo acenando com as mãos! 

Ivan Tadeu Panicio Junior - Reflexões
Postar um comentário